Seres humanos que devido a atrocidades da vida passaram a ser Ninguém e começaram a navegar na poesia diária que se constrói por necessidade e não por amor.
Foi num contexto de pobreza que, no último encontro do JMC, no Centro missionário Allamano, em Fátima, recebemos Henrique e duas testemunhas da frieza das ruas, Helena e António. Tudo isto para despertar em nós a consciência de que neste mundo, aparentemente cor-de-rosa, existem pessoas a sofrer e a tentar singrar em caminhos ingratos.
“O que sou, devo-o à Consolata!”. Assim começou Henrique que leccionando na Universidade Lusófona de Lisboa, não esquece todos aqueles que o ajudaram a crescer e a tornar-se a pessoa que é hoje porque a Consolata ainda está no que escreve. Sempre viveu desassossegado e considera o desassossego a sua doença porque é ele que o consome. Foi com este espírito inquieto que chegou à “Cais”, uma revista que, segundo ele, “é uma estratégia porque não é ela que ajuda as pessoas, mas é sim a força de vontade e a energia de cada um”.
A “Cais” já conseguiu resgatar muitas pessoas da pobreza e ajudou-as a chegar a um porto seguro. Testemunhas disso são Helena e António cuja vida não os premiou com a sorte que todos desejamos.
Helena nasceu em Moçambique, em Agosto de 1957 e sempre gostou da arte e da pintura. “Eu queria nascer e morrer como artista, mas não tenho sapiência para isso”, é uma frase que repete diariamente e que demonstra a sua paixão pelo mundo do belo. A situação que vive deve-se ao facto de ter trocado o dinheiro pela liberdade e como a própria defende “a liberdade é muito cara”. Foi através da “Cais” que encontrou um pilar para a sua vida e que deixou as calçadas frias e esgotadas das ruas, deixou o seu tecto estrelado para passar a ter um quarto onde reza, todos os dias, para agradecer toda a ajuda que até aqui lhe foi dada. Ao longo dos dias vai pintando e vai-se aproximando cada vez mais da artista que gostaria de ser e que gostaria de ser lembrada.
António recomeçou uma nova vida depois de ter

São os testemunhos de pessoas como estas que fazem com que o voluntariado se torne a actividade mais remunerada de todas. “Helena e António são pessoas mais ricas do que todos nós porque já viveram altos e baixos na vida e são estes momentos que enriquecem uma pessoa”, garante Henrique. Todas estas pessoas dão a força que é necessária para que uma actividade como esta continue.
Chegada ao fim de mais uma formação nas nossas vidas podemos ter a certeza de que existem muitas pessoas que passam por dificuldades. Não se tratou apenas de uma formação teórica mas tratou-se sim de uma formação prática em que fomos consciencializados por pessoas que viveram situações de grandes atrocidades.
Como sublinha a fadista Mariza “há coisas que ficam na história, na história da gente” e é por isso que vale a pena Viver.
Flávia Duarte - JMC
Um artigo muito interessante e enriquecedor.
ResponderEliminarQuando o sobreviver se impõe ao viver, uma mão amiga é uma pérola preciosa.
Bjs
Fa
Escrever sobre este encontro de modo mais resumido é impossível!
ResponderEliminarFoi um encontro de formação muito enriquecedor!
Deixou muitos dos presentes sem palavras, sem o que dizer ou perguntar!
Mostrou-nos uma realidade desconhecida de grande parte das pessoas!
Alertou-nos para a falta de políticas de solidariedade social efectiva!
Lembrou-nos o individualismo narcisista em que muitos dos que podiam ajudar vivem!
Recordou-nos que as riquezas existentes davam para que TODOS vivessem com dignidade e que o dinheiro está é muito mal distribuído!
Lembrou-nos que a maior crise actual é crise dos afectos!
Foi um encontro que não deixou ninguém indiferente, com muita matéria para reflexão. Com gente com muita coisa boa para partilhar e para fazer pensar, reflectir e... agir.
ResponderEliminarE, como diz o João, a Flávia consegue, aqui transmitir por palavras escritas, de uma maneira tão profunda e bela, a riqueza daquele encontro. Tão novinha e, podemos dizer... já temos escritora! Parabéns!
Muitas vezes so damos valor ao que temos, quando o perdemos.
ResponderEliminarEstes dois cidadãos tinham "tudo"... Familia, vida social, amigos, etc...mas por varias razões, perderam tudo. E quando queremos por um "travão" na vida que levamos, pode ser já demasiado tarde para darmos a volta à situação sozinhos...e necessitamos de uma mão amiga.
Eles, tiveram a coragem de pedir ajuda.
Quantas e quantas pessoas não dormem ao relento por não conseguirem mudar a vida que levam nem terem a coragem de pedir desculpa!?!?
Para se fazer missão ou voluntariado, não é preciso ir "lá fora"...as vezes ate dentro da nossa familia ou um vizinho, que precisa de alguém que lhes estenda a mão, porque sozinhos já não têm a força de mudar.
Estas pessoas, normalmente, são muito ricas em experiência, porque viveram o melhor e o pior do que a vida tem...
São estas coisas que nos fazem pensar e ver que a vida pode mudar.
"São os testemunhos de pessoas como estas que fazem com que o voluntariado se torne a actividade mais remunerada de todas."
ResponderEliminarOra aí está uma revolução no conceito de "remuneração".
Mas há ainda pouca gente que tenha descoberto o verdadeiro alcance desse tipo de actividades. Por mim, já pude experimentar vários tipos de voluntariado. E todos me enriqueceram muito.
Nando
um encontro que me arrisco a dizer mudou vidas...
ResponderEliminarAdorava ter estado presente :S
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